Case · Replataforma · Legaltech

Amplitude
sem labirinto.

Um escritório de advocacia full-service tinha 87 telas e 53 itens de menu — e um quarto da plataforma não era alcançável por nenhum caminho da interface. A proposta cabe a mesma capacidade em cerca de 40 telas e 29 itens, sem remover uma única função.

Painel do LegalDock com o Dock flutuante à esquerda, KPIs do mês e a fila de aprovação da IA
O painel do escritório no protótipo navegável: o Dock flutuante à esquerda, os indicadores do mês e, no rodapé, os próximos prazos ao lado da fila de aprovação dos agentes.
ClientePlaça Advocacia
SetorLegaltech · serviços jurídicos
PapelSenior Product Designer
EscopoPainel do escritório + portal do cliente
MaturidadeProtótipo funcional navegável

01 · Contexto

Um produto all-in-one que ninguém conseguia atravessar.

A plataforma fazia tudo que um escritório precisa. O problema nunca foi o que faltava — era encontrar.

O LegalDock é a plataforma de gestão do Plaça Advocacia: casos, prazos, clientes, documentos, funil comercial, financeiro, atendimento por WhatsApp e um portal próprio para quem é atendido. A amplitude é o argumento comercial do produto, e ela é real. O diagnóstico que originou este trabalho, porém, mediu o custo dela: 87 telas, 53 itens de menu, 21 rotas que existiam no código e não apareciam em lugar nenhum do menu, e quatro botões que abriam tela vazia sem erro nem aviso.

Havia ainda um ativo construído e invisível. O ciclo de IA com aprovação humana — fila por nível de risco, agentes versionados, custo por execução — já estava implementado em seis telas, todas dentro da área de administração do sistema. Nenhuma delas chegava ao advogado como produto. Era a promessa de valor da plataforma morando num endereço de manutenção.

02 · Desafio

"All-in-one" e "simples" puxam para lados opostos.

A pergunta que organiza o projeto inteiro: como manter a amplitude e reduzir a superfície? Cinco problemas estruturais responderam por quase toda a confusão medida.

01

Um quarto era invisível

21 rotas existiam no código e não tinham entrada no menu. Quem não conhecesse a URL não chegava lá — e quem conhecesse não sabia se aquilo era produto ou rascunho.

02

Dois financeiros sobre a mesma base

20 telas de Financeiro, com dois sistemas concorrentes lendo os mesmos dados e seis lugares diferentes reportando custo. Metade da área era inalcançável.

03

Três WhatsApps, um atendimento

Três interfaces de conversa, três balões de mensagem e três compositores de texto para a mesma tarefa — além de outras três escondidas em rotas de desenvolvimento.

04

Três nomes para o mesmo objeto

Processos, Matérias e Casos eram a mesma coisa do mundo real, em telas diferentes e com dados diferentes. Cliente aparecia como Cliente 360, Clientes e Clientes Asaas.

05

Estados que ensinam a desconfiar

O briefing gerado por IA dizia apenas "não foi possível gerar", sem motivo e sem ação. "Novo cliente" abria uma tela em branco — o pior estado possível, porque não parece erro nem sucesso.

06

Nenhum sistema de design

Seis componentes de upload, seis tabelas financeiras com colunas parecidas, dois sinos de notificação e nenhum seletor de data comum — os formulários usavam o campo nativo do navegador, que muda de aparência e de idioma por sistema operacional.

03 · Estratégia e mapeamento

Consolidar antes de desenhar.

Antes de qualquer tela nova, o trabalho foi de produto: medir a redundância, decidir o destino de cada rota órfã e reagrupar a navegação por trabalho, não por módulo. A tabela abaixo é o alvo que orientou tudo o que veio depois.

DiagnósticoProposta
Telas87~40
Itens de menu5329 · 21 painel + 8 portal
Rotas fora do menu210
Telas de Financeiro207
Interfaces de WhatsApp3 (+3 ocultas)1
Telas que listam clientes62
Lugares que reportam custo61
Componentes de upload61
Botões sem destino40

A ordem de ataque saiu da relação entre esforço e impacto, e começou pelo que não dependia de decisão estratégica: corrigir os quatro caminhos quebrados, proteger as rotas de desenvolvimento e unificar a nomenclatura são correções, não escolhas. As decisões caras — consolidar o Financeiro, escolher uma interface de WhatsApp, unificar o conceito de cliente — vieram depois, cada uma com a alternativa descartada registrada por escrito.

04 · Decisões de design

Catorze decisões, cada uma com a alternativa descartada.

Toda escolha estrutural virou registro: contexto medido, decisão em uma frase, consequências — inclusive as ruins — e o motivo de cada alternativa recusada. Decisão revogada não é apagada: muda de status e aponta para quem a revogou. Foi o que aconteceu com os honorários.

  1. 01

    O Dock substitui o menu lateral

    A navegação era uma barra encostada na borda, idêntica à de qualquer painel administrativo. Virou uma peça flutuante em vidro com dois cortes: um trilho com os seis grupos como ícone e um painel de nomes que abre no grupo da rota atual. O trilho carrega grupos e não os 21 itens porque 21 alvos de 44px passam de 900px de altura — mais que a área útil de um notebook.

  2. 02

    Espiar sem sair do lugar

    Passar o ponteiro por outro grupo pré-visualiza o conteúdo dele sem navegar; tirar o ponteiro volta ao grupo atual. É o gesto que elimina o clique a mais que um menu de dois níveis cobra. As tooltips foram removidas: ficavam três abertas ao mesmo tempo, tapando justamente os ícones que nomeavam. O nome continua no DOM para leitor de tela.

  3. 03

    O vidro é material, não efeito

    Uma única classe, usada por apenas dois objetos — o Dock e o Oráculo. Card, tabela, painel e diálogo continuam opacos. Sem suporte a desfoque, ou com redução de transparência ativada no sistema, ela cai para superfície opaca: perde-se o efeito, não a leitura.

  4. 04

    A IA é camada, não widget

    O Oráculo flutua em toda rota das duas áreas e responde de qualquer tela. O que o separa de um chatbot é o formato da resposta: uma frase curta, os registros que ela resume — cada um clicável — e o caminho para abrir tudo. Parágrafo é o que um chat devolve; destino é o que um sistema devolve.

  5. 05

    Consulta, não age — e fonte é obrigatória

    O Oráculo não escreve nada. Quando a resposta lista registros, a fonte é obrigatória: é o que separa resposta de palpite para quem lê um assistente jurídico. Pergunta não reconhecida devolve recusa, não chute. E ele passa pelo mesmo filtro de permissões do Dock — responder "encontrei 4 processos com prazo amanhã" a quem não pode ver processos vaza a existência deles.

  6. 06

    Permissão por ação, não por área

    Dar acesso a "Financeiro" é grosso demais para um escritório onde o estagiário lança despesa e só o sócio aprova repasse. A autorização passou a ser por ação, e a camada de interface apenas esconde item de menu — nunca é a proteção, que é decidida no servidor.

  7. 07

    Todo estado vazio responde três coisas

    O que aconteceu, por quê e o que fazer agora. Um vazio de segundo nível — a lista existe, o filtro é que não achou — é um estado diferente de "não há registro", e dizer a mesma frase nos dois casos manda a pessoa procurar o que não existe.

  8. 08

    Honorários mudou de casa, e o registro ficou

    A primeira decisão colocou honorários dentro de Contratos. Quatro dias de uso do protótipo mostraram que honorário é evento de receita, não cláusula: virou aba de Receita & Cobrança. A decisão antiga permaneceu no registro, marcada como revogada e apontando para a que a substituiu.

Tela do funil comercial do LegalDock, com etapas em colunas e cor por estágio
O Funil era o ponto mais forte da interface original — leitura clara, cor com significado, agrupamentos úteis. Em vez de redesenhá-lo, virou a tela de referência: o padrão que as outras passaram a seguir.

05 · Da estratégia à experiência

Protótipo navegável, não tela estática.

A proposta não foi apresentada em telas soltas. Foi construída como produto que se abre no navegador e se atravessa de ponta a ponta.

A fase de design fechou com 35 telas construídas e 36 contratos de dado. Cada tela nasce com os quatro estados — dados, carregando, vazio e erro com repetição — e o protótipo expõe um seletor de estado visível, para que qualquer um deles possa ser demonstrado numa reunião sem simulação de falha. Toda string passa pela camada de tradução, em português e inglês, no mesmo commit.

A fronteira entre design e desenvolvimento é física, não combinada: nenhuma tela faz requisição, lê variável de ambiente ou chama ação de servidor — toda integração mora numa camada separada, e um verificador no CI reprova o pull request se a regra for quebrada. É o que permite que uma tela aprovada vire tela integrada em horas, em vez de virar retrabalho.

35Telas construídas na fase de design
36Contratos de dado validados
4Estados obrigatórios por tela
2Idiomas em paridade no CI

06 · Inteligência com dono

Quem aperta enviar?

O modelo inteiro de IA do produto cabe nessa pergunta. A resposta é um desenho de produto, não um recurso de modelo: o risco decide se o agente age sozinho ou se existe um passo humano obrigatório.

01

O risco decide o caminho

Risco zero envia sozinho. Risco um, dois ou três vai obrigatoriamente para a fila de aprovação, onde uma pessoa aprova ou recusa. A interface nunca envia sem passo humano acima de risco zero.

02

Parada é informação, não falha

Um agente de risco zero pode parar por conta própria quando o erro seria irreversível — por exemplo, ao identificar um prazo fatal. Quando isso acontece, a tela mostra o motivo da parada em vez de escondê-lo num log.

03

Rascunho não é mensagem

O que o agente produz vive na fila, nunca na conversa. Só depois da aprovação humana vira mensagem enviada, e ela carrega a marca de quem a gerou. Misturar os dois faria o cliente ler como enviado algo que ninguém conferiu.

04

O ciclo sai da administração

A decisão de maior impacto comercial e menor custo do diagnóstico: tirar a fila de aprovação da área de manutenção e desenhá-la como tela central do produto. O que já estava construído passou a ser o que o advogado vê.

Tela de agentes de IA do LegalDock, com nível de risco, versão do agente e custo por execução
Agentes versionados, com risco declarado e custo por execução visíveis. A escolha de mostrar o custo é deliberada: um escritório precisa decidir se vale a pena rodar o agente, e essa decisão não se toma sem o número.

07 · Em destaque

O que a consolidação liberou.

Reduzir superfície não foi cortar função. Foi juntar o que já existia espalhado e devolver cada capacidade num endereço só.

01

Financeiro em sete telas

As 20 telas viraram 7, com abas coerentes e os cadastros fora do menu principal. A regra prática que organizou a área: no máximo dois níveis dentro de uma tela — a terceira camada de abas simplesmente sumia da vista.

02

Um cálculo com consequência contábil

A classificação de risco dos casos define o que entra no resultado do escritório e o que fica de fora. "Possível" não é meio provável: não existe provisionar metade, e um número intermediário inventaria um grau que a norma não tem. A interface reflete os três graus, sem meio-termo.

03

Prazo fatal em cor e em texto

Irreversível ao perder, então nunca sinalizado só por cor — quem não distingue as cores precisa da mesma informação. E prazo fatal sem data não existe: se vier assim da origem, é defeito, e o contrato de dado recusa.

04

Atendimento em tela cheia

Conversar com um cliente não é consultar um painel: é o trabalho inteiro naquele momento. O atendimento virou espaço de trabalho, com a navegação saindo de cena — e passou de três interfaces concorrentes para uma.

05

Duas áreas, uma porta

O painel do escritório e o portal do cliente compartilham a entrada, e a área é resolvida depois da verificação — quem sabe a qual área um e-mail pertence é o cadastro, não a pessoa na porta.

06

Andaime com cara de andaime

Os atalhos de demonstração do login têm contorno tracejado, superfície afundada e um selo "Protótipo". Andaime com a mesma aparência do produto é andaime que alguém confunde com produto — e é assim que ele fica para sempre.

Tela de DRE e margens do LegalDock, com gráficos de resultado por período
Financeiro consolidado: o que estava distribuído por 20 telas e seis relatórios de custo passa a ter um lugar e uma hierarquia de no máximo dois níveis.
Portal do cliente do LegalDock, com a visão de quem é atendido pelo escritório
O portal do cliente, sem os itens de administração que antes dividiam a navegação com ele. Dois públicos na mesma lista confundem os dois.

08 · Impacto e aprendizados

O que o protótipo permite testar.

Nenhum número aqui é resultado de produção. São hipóteses que o protótipo torna verificáveis antes de custar desenvolvimento.

A primeira hipótese é de alcance: se a mesma capacidade cabe em 29 itens de menu em vez de 53, um advogado autônomo — que não tem quem o treine — consegue atravessar a plataforma sozinho. Isso é testável com qualquer pessoa diante do protótipo, sem back-end, e era intestável enquanto a proposta fosse um documento.

A segunda é de valor percebido: promover o ciclo de IA de área de manutenção a tela central muda o que o produto parece ser na primeira sessão. O diagnóstico aponta essa como a mudança de maior impacto comercial e menor custo — a afirmação continua sendo uma hipótese do documento, e não um resultado medido.

O aprendizado mais útil foi sobre forma de registro. Catorze decisões escritas com a alternativa descartada mudaram a natureza das reuniões seguintes: em vez de reabrir a escolha, a conversa passou a ser sobre o que muda se o cliente preferir o contrário — que é a informação de que quem implementa realmente precisa.

09 · Conclusão

Reduzir superfície é trabalho de produto.

Nenhuma função foi removida. O que mudou foi quantos caminhos levam ao mesmo lugar, e quantos não levam a lugar nenhum.

A parte difícil deste projeto não foi desenhar o Dock nem o Oráculo. Foi decidir, uma a uma, o destino de 21 rotas órfãs, escolher uma palavra para cada conceito e aceitar que consolidar o Financeiro custava caro e precisava ser feito mesmo assim. Essas decisões não aparecem numa tela — aparecem na ausência de confusão.

O protótipo entregou o que uma apresentação de telas não entrega: a possibilidade de atravessar as duas áreas, bater nos estados de erro, abrir a fila de aprovação e discordar com o produto na frente. A fase de desenvolvimento começou com as telas já existindo, os contratos de dado já escritos e as decisões já registradas — que é a única forma de uma proposta sobreviver ao contato com a implementação.

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